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De onde vem o suporte para eu viver viajando?

À 300 km/h ao som de “ando devagar porque já tive pressa”, da janela; as plantações em filas indianas e paralelas que rapidamente dão lugares a vacas simpáticas saboreando o capim, que se transformam em cidadezinhas limpas e ordeiras e logo vem as florestas que sobem montanhas e seguem rios. filho e pai viagem de trem

A poeira, que não se vê “é como tempo, um véu, uma bandeira, tropa viajada”.

Há 5 anos atrás eu estava em um trem indo da Alemanha à Suíça e me lembro bem daquela sensação de absorver a paisagem com os olhos enquanto deixava os pensamentos correrem para o lado ensolarado do mundo.

Agora a experiência é outra.

Quem está entre a janela e eu, viajando da França à Suíça é meu pai, Wilian Junqueira em sua primeira viagem para longe do Brasil. Para a minha surpresa ele deixou que eu colocasse meu gigantesco fone de ouvido em suas orelhas com algumas canções que remetem à sua origem simples, na poeira da roça, tentando provavelmente entender a vida enquanto se tocava os bois.

“Na estrada de chão, vai boiada” e por aí vai.

Vejo seus olhos perdidos na paisagem pelo reflexo do vidro e por um momento os confundo com os meus próprios. Com o volume alto da música nas orelhas ele começa a cantar e nem percebe que o escutamos junto com outros passageiros do trem. Eu olho entre minha mãe e o Rafael e rimos entre nós mesmos enquanto seguro a tentação de cutucá-lo para cantar mais baixo.

Não só no trem mas em vários momentos durante as duas semanas que viajamos juntos eu me identifiquei com suas descobertas, a sensação parece ser a mesma quando vemos alguma coisa pela primeira vez. Com a diferença de haver um intervalo de alguns anos entre nossas experiências, não deixo de apreciar a contradição de ver naqueles olhos marcados pelas rugas do tempo o reflexo das novas descobertas. Um olhar ingênuo, quase infantil com aquela esperança de viver em um mundo mais colorido que perdemos ao deixarmos sutilmente ao crescer, sermos tocados, seguindo a manada.

Sei que ele se impressionaria com o gelo e neve na Suíça, as igrejas de tamanhos monstruosos, os castelos medievais no interior da França, as diferenças culturais, a segurança das cidades, as estradas perfeitas, a velocidade e a pontualidade do trem, o por do sol às quase 10 horas da “noite”, mas será que duas semanas seria o suficiente para enxergar um pouco além do que a vista alcança?

Por muito tempo eu desejei fazer aquela viagem e para ser sincero desde criança, sempre foi o meu sonho viajar com eles.

Finalmente realizando meu sonho de viajar para longe com meus pais! :)

Finalmente realizando meu sonho de viajar para longe com meus pais! 🙂

A falta de tempo (e de dinheiro) era sempre a desculpa para não viajarmos para longe.

A responsabilidade de garantir a sobrevivência de 3 crianças em um país muitas vezes injusto e corrupto era imensa. Cresci vendo meu pai dedicando sua vida inteiramente para o sustento da nossa família e ironicamente o que eu mais senti falta ao crescer era de ver um sorriso no seu rosto, vê-lo fazendo alguma coisa que gostava, como pescar por exemplo.

O meu desejo era de vê-lo mais feliz e sempre associei aquela felicidade ao dinheiro.

Infelizmente a sociedade e a cultura que a gente cresce no Brasil te ensina isso, principalmente quando você cresce em uma escola particular por ter bolsa de estudo e vê nos tênis e mochilas de marca da maioria dos colegas, condições financeiras bem melhores que a sua.

Meu pai foi vítima do sistema, da sociedade e do capitalismo, assim como qualquer um é quando se deixa ser vítima. Sofreu ameaças e chegou a deixar um “excelente” emprego para não largar mão de seus ideais. Para compensar os problemas e falta de dinheiro ele trabalhava cada vez mais, sete dias por semana para cobrir os cheques sem fundo que recebia das pessoas que ele dava sua confiança.

Seu cansaço era visível no corpo e nos olhos e para não deixar de cumprir com suas outras responsabilidades de pai, após uma semana cheia de estresse, no final da jornada do domingo ele ainda achava ânimo para nos levar em um parque, uma roça, nos ensinar a apreciar a natureza, amar os animais, andar a cavalo e nos mostrar o que havia por fora daquela bolha em que vivíamos.

Minha paixão e meu desejo por explorar o mundo surgiu provavelmente daquelas mini-viagens. Era a fresta onde eu podia enxergar o mundo do lado de fora, já que nem mesmo o céu eu podia ver daquele pequeno cômodo onde eu dividia espaço com os meus dois irmãos.

Quando sem sono eu me cansava de contar as listras do colchão da beliche de cima eu olhava para a janela em busca de uma vista diferente e tudo o que via era o cômodo ao lado. O jeito era fechar os olhos e ainda acordado: Sonhar.

Sonhamos porque essa é a nossa maior responsabilidade quando ainda não conhecemos a “realidade” do mundo de fora e ainda não entendemos o significado da palavra “cliché”.

Esse é o maior problema de nós que nascemos em berços reluzentes da cor de ouro, refletidas pelas lantejoulas que são coladas uma a uma com a dedicação dos nossos “papais” e mamães, isso quando temos a oportunidade de crescer ao lado deles.

Muitas vezes quando tudo parecia escuro eu lembrava do exemplo de perseverança do meu pai, que saiu ainda jovem da roça simples, deixando a numerosa família para trás em busca de seus próprios sonhos.

Com treze anos já tinha seu emprego na capital longe de sua família para garantir o seu próprio sustento e educação. Foi aos poucos subindo na escadinha da vida chegando a estudar em uma das melhores universidades do país um curso que o trouxe não muito mais que um enfumaçado status e título de advogado. Como um emprego que embora muito longe de aproveitar seu verdadeiro potencial e todos aqueles anos de estudo e dedicação o trouxe algumas oportunidades como de escrever as palavras do discurso do homem que ainda se tornaria vice-presidente da república.

Mas status é um castelinho de areia diante do verdadeiro mar da vida, e enquanto crescíamos muitas vezes parecia que o morro que caminhávamos só tinha um lado, aquele que desce. Sei que meu pai se culpa ou pelo menos já se culpou por não ter conseguido nos dar mais coisas que o dinheiro compra, mas desde que eu comecei a viajar eu bato na mesma tecla considerando esse fato como uma das maiores bênçãos da minha vida.

Por esse motivo eu percebi ainda bem jovem que eu deveria usar minhas próprias pernas para ir atrás do que eu acreditava. Eu não podia e nem deveria depender financeiramente de ninguém para ir atrás do meu sonho de viajar por exemplo.

E foi abrindo a cortina daquele mundinho com minhas próprias mãos que eu descobri não apenas paisagens, culturas e artes, mas mundos inteiros escondidos em cada encontro, em cada experiência e em cada aventura. Carregando sempre na bagagem os valores que aprendi com o exemplo do meu pai e também da minha mãe sem nunca precisar dos dogmas da igreja e das promessas das religiões para praticar honestidade, caráter e também amor incondicional.

Em breve eu perceberia que as fotografias e as palavras que eu enviava para casa não pareciam fazer justiça com àquilo que eu estava realmente vendo e sentindo. Estava na hora de retribuir para quem me bancava com o suporte do amor, mas nunca do dinheiro, as minhas viagens ao redor do mundo. Eu queria que o meu velho tivesse também esse gostinho do mundo, ou melhor, dos mundos. Que ele soubesse que o que existe lá fora vai muito além das páginas dos livros e das revistas que ele sempre leu muito, dos programas de televisão e dos filmes.

Quando tentava convencê-lo a colocar os pés para fora do país, sua resposta era sempre a mesma: Que era caro demais e que conheceria o Brasil primeiro.

Então tive um plano.

No último natal, depois de abrir caixas dentro de caixas (com pedras para dar peso) que eu preparei para o seu presente, lá meu pai encontrou o papel com o número da reserva do seu voo com minha mãe para Portugal, França e Suíça já comprado e garantido. Veja o vídeo dele abrindo a caixa aqui.

Meses depois em uma carta de duas páginas me agradecendo pelo presente ele arrematava um parágrafo com a frase: “Era um pequeno mundo descortinando outros tão distantes e ao mesmo tempo ao alcance dos olhos. Tão geograficamente apartados de mim e materializados na visão e no sentir.” Enquanto sigo na carruagem da vida passando por lugares distantes, conhecendo “as manhas e as manhãs, o sabor das maças e das maçãs” pelo mundo afora, na minha bagagem inseparável, levo a sincera gratidão por eles que me deram as raízes e as asas.

Essa é a minha sincera resposta para a pergunta que eu escuto tanto: “De onde vem o suporte para você viver viajando?”. Enquanto acharmos que o suporte para conhecer o mundo ou para seguir nossos sonhos tem que vir na forma de dinheiro, dificilmente saímos do nosso quadrado.

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28 Comentários à De onde vem o suporte para eu viver viajando?

  1. safirah passos 23/01/2017 at 17:16 #

    Show de bola… muito realista e Sincero adorei seu trabalho! Abcs

  2. Barbara 31/12/2016 at 10:29 #

    Tenho uma necessidade tão grande em viajar mas, não tenho dinheiro para isso. Parece que não estou aproveitando a vida como deveria. É uma sensação muito ruim. 🙁

  3. Carla 25/07/2016 at 04:16 #

    Olaa, adoraria poder conversar mais com você, tenho apenas 19 anos e ando lendo muito blog sobre isso, porém gostaria de poder conversar sobre alguns detalhes com alguém, se pudesse se disponibilizar ficaria muito feliz 🙂 pode ser contato por e-mail mesmo, acho que vc tem acesso ao nome do meu email não?

    • Gusti 26/07/2016 at 11:18 #

      Oi Carla, te enviarei um e-mail!

      Abraço!

  4. Iuri 06/07/2016 at 20:45 #

    Olá, Gustavo.
    Bacana o relato. Mas nós o lemos todo esperando a resposta-pergunta do título. Entendemos a motivação familiar, sentimental das viagens. Mas, efetivamente, como as passagens são pagas? Qual o suporte financeiro para viver viajando? Entendemos o processo das hospedagens gratuitas ou em albergues, mas e todo o resto das despesas? Tenho um amigo que está fazendo mestrado e pesquisando a prática jornalística e o nomadismo digital. Ele está em Portugal neste momento, e aproveitou para conhecer outros países na região. Mas ele tem uma bolsa que o ajuda na pesquisa. Mas e para quem não tem essa possibilidade? Ficamos no aguardo. E obrigado pelas informações. Abraço.

    • Gusti 16/07/2016 at 15:41 #

      Oi Iuri,

      Tudo é pago com meu próprio dinheiro. Meu trabalho hoje em dia é online e há diversas ferramentas que você pode usar para trabalhar pela internet: Bem vindo ao nomadismo digital! Sugiro que leia o livro do Tim Ferriss, 24hrs work week, se tiver interese nessa área, ams já adianto um site onde vc pode colocar seus serviços free-lancer pela internet: elance.com

      Eu estou devendo um post urgente mais detalhado sobre o assunto mas tentando resumir minahs viagens nos últimos 6 anos foram possíveis mais devido à busca de oportunidades e experiências do que forma de fazer dinheiro. E por isso que criei esse blog, mas mostrar ferramentas de como vc pode se hospedar de graça, voar de graça e gastar pouco nas viagens… De uma olhada na seção recursos!

      Mas cada pessoa tem sua forma e já encontrei muitos viajantes com formas variadas, espero que você encontre a sua também!

      Um abraço!

  5. Lucas Estevam 18/06/2016 at 02:41 #

    Caraca! Tu manda bem SeMPRE! que textao!!! Historia show! abração

    • Gusti 23/06/2016 at 07:46 #

      Valeu Estevam! Fico feliz em te ver por aqui!

      Um abração!

  6. Guilherme Quintaneiro 13/05/2016 at 01:50 #

    Que texto fantástico!
    Irmão me sinto honrado por ser conduzido até aqui pelo Google. Você reascendeu em mim algo que estava apagando e que eu já não acreditava mais.
    Continue compartilhando conosco sua história. Acredite, Isso transforma vidas!

    • Gusti 12/06/2016 at 12:40 #

      Poxa Guilherme, isso tudo? Obrigado pelo seu comentário, volte sempre e compartilhe sempre essa luz reacendida! 🙂 abraço!

  7. Augusto Euzebio 07/01/2016 at 00:29 #

    olá Gustavo tudo bem, (desculpa não usar interrogação pois o teclado não tem, pelo menos não encontrei-o ainda haha)
    já li algumas de suas postagens e agora decidi tomar coragem para fazer este pedido, sonho em viver nos estados unidos, mais nunca recebi apoio de ninguém, tenho apenas 21 anos de idade e não terminei os estudos nem os cursos que comecei, não sinto alegria em viver no Brasil, não sei ao certo o motivo mais nunca senti, desculpe se não estou sendo patriota, nunca votei nem servi as forças armadas, ficaria muito feliz em receber uma carona até os estados unidos, posso lhe ajudar com qualquer tarefa pois tenho muita habilidade em aprender qualquer tarefa que me seja dada, moro em São Bernardo do Campo- São Paulo terra do nosso ex presidente

    • Gusti 12/06/2016 at 12:39 #

      Oi Augusto,

      Acho importante ter uma ideia do que se quer ser (não necessariamente fazer) na vida e aos poucos tomar os passos para para atingir seus objetivos. Estudar é um bom caminho. Não quero te desiludir mas “viver” por viver nos EUA não é o que parece. Esse é um país extremamente competitivo e é necessário ter algumas habilidades para tentar conseguir uma vida que se preze por lá. Infelizmente não posso ajudar com seu pedido… Boa sorte!

  8. Giulliana Karla 28/12/2015 at 15:28 #

    Que máximo. Muito mais emocionante são esses dois comentários de seus familiares… Parabéns pela nobreza e simplicidade de viver a vida e pela coragem de ser quem és. Acho que o real sentido da nossa caminhada está muito ligado a isto: sermos quem somos! E dinheiro é apenas um adereço totalmente secundário na nossa trajetória, o que nos impulsiona e emociona é muito maior! Parabéns, siga sempre em frente!

    • Gusti 12/06/2016 at 12:30 #

      Sermos quem somos… parece tão simples né? Pena que pouca gente reflete sobre isso… Obirgado pelo comentário Giulliana! 🙂

  9. Amanda 09/12/2015 at 14:46 #

    Que incrível! Me identifiquei bastante com suas palavras 🙂

  10. Alexandre Machado 04/12/2015 at 15:44 #

    Embora estando 16 dias na mesma viagem, somente agora pude conhecê-los e já corri para o vagamundagem. Parabéns, a primeira leitura já me impressionou e, confesso , emocionou tb. Desejo SUCESSO nesta jornada fantástica. Abraços

    • Gusti 12/06/2016 at 12:27 #

      Oi Alexandre!

      Poxa, obrigado pelo comentário!

  11. Eduardo 10/11/2015 at 13:53 #

    A carapuça me serviu. Perguntei isso na postagem anterior e melhor resposta do que essa é impossível. Grato pelos seus ensinamentos!

    • Gusti 12/06/2016 at 12:09 #

      Oi Eduardo! Esse blog não tem carapuças, haha Quem sou eu para ensinar alguma coisa, apenas tento colocar em palavras o que minhas experiências pelo mundo tem me revelado! Abraços!

  12. Dani 10/11/2015 at 11:48 #

    Que relato sensível. E que gostoso ler também o comentário dos seus pais e sentir que essa valorização das vivências é de família.
    Abraços e desejo que viagem muito juntos!

  13. solange 09/11/2015 at 11:46 #

    Eh Gustavo, a cada dia que passa nosso orgulho de ter você como filho é grandioso, não só faz o bem para aqueles que o amam, mas para todods que tenham o privilégio de sua convivência. Sua marca maior é única e o torna sempre diferente das outras pessoas: Humildade. A graandeza de sua vida, de seus conhecimentos de suas buscas e conquistas, são méritos exclusivos e muito dígnos de sua pessoa.Seu caráter ímpar faz brilhar sua áurea e te impulsiona a cada vez ir mais longe, com todas as benções de Deus e de sua família que o ama muito!!!!

    • Gusti 12/06/2016 at 12:19 #

      Obrigado Mãe, por tudo que me ensinou e ainda ensina! 🙂 beijos!

  14. wilian oliv eira junqueira 09/11/2015 at 10:56 #

    Só você mesmo, Filho, para me levar tão longe, para além dos meus sonhos, que nunca extrapolaram as fronteiras do Brasil. Ainda bem que as cordas que lhe dei tiveram a tecê-las fios sólidos de amor verdadeiro e desejo de felicidade e estão sendo usadas para esticar seus horizontes, amarrar seus bons sentimentos e embalar seus sonhos, que a cada passo são compartilhados como esse desta mensagem. Obrigado, Filho. Tenho muito orgulho de você.

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