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Quem já se drogou sem drogas?

Uma das sensações mais sublimes que eu experimentei depois que eu comecei a viajar, é algo difícil de explicar com palavras. É um misto de euforia e bem-estar, me sinto leve e muito feliz aparentemente sem nenhuma razão principal. Parece ser a mesma sensação de algumas pessoas quando se embalam nos louvores da igreja, ou em seus rituais, ou em uma palestra motivacional de companhias como Herba Life, mas na maioria das vezes isso acontece comigo quando estou sozinho em algum lugar amplo. Não estou aqui para vender a ideia de que viajar vai fazer você se sentir assim, caso contrário abriria uma igreja e ficaria r… deixa pra lá. Até porque, quando acontece, é de forma inesperada.

Uma das vezes que me senti assim, eu era a única pessoa no topo de uma montanha nevada nos EUA. Como eu era operador de um teleférico afastado, eu era o primeiro, de manhã bem cedo, a subir um teleférico central, esquiar até certo ponto e continuar numa curta caminhada até o topo de um outro teleférico onde eu cavaria a neve lá em cima para autorizar o funcionamento daquela área. Enquanto eu cavava a neve eu sentia aquela sensação boa e uma energia extra, mesmo dormindo apenas umas 4 horas por noite naquela época.
Estação de esqui
Já senti também algumas vezes algo similar enquanto pilotava e eu era a única pessoa dentro do avião. Mas aqui parece ser mais óbvio, já que voar é uma das minhas paixões. Uma das vezes mais inesperadas porém aconteceu quando eu estava sem sono e no meio da noite resolvi ir para praia e subi uma torre de salva-vidas. Cheguei até escrever esse texto aqui embaixo logo depois tentando colocar em palavras a sensação:

Ao longo da praia as palmeiras e os coqueiros se curvam para o lado e dançam um balé em um sincronizado vai e vem. O vento, essa coisa geralmente invisível, vai aos poucos mostrando sua força. 
Sua sublime força. Todo mar responde a ele, e as ondas com as cristas brancas quebram na praia e fazem sua melodia. Já é madrugada, mas as luzes da iluminada costa da Flórida se refletem nas nuvens que chegam baixinho e se estendem sobre o mar. Num dramático degradê, elas se escurecem ao tom negro e parecem tocar o mar no horizonte. O aproximar de uma frente fria e sua tempestade pode ser um dos eventos mais sublimes que alguém pode experimentar. São duas horas da manhã e eu estou na praia para ver esse espetáculo. O cover é gratuito, por que não? Sozinho aqui, na plataforma dos salva-vidas, me faz sentir o poder da natureza e a minha impotência, como ser humano. Me despe da minha natureza humana arrogante, me faz sentir mais simples, parte da  natureza, parte de um todo, que é difícil de compreender. Mas eu posso sentir – esse “todo” do qual faço parte. Começo me sentir mais leve e parece até que estou voando. Sim, sem drogas. Pode etiquetar essa experiência de meditação se quiser. Te faz sentir protagonista de um filme, mas onde todos têm o mesmo papel. Você sente que cada um de nós seres humanos, tão insignificante, tão impotente, por fazer parte desse “todo” tem o potencial de fazer a diferença, escrever a própria história, tomar diferentes caminhos, fazer escolhas. Que certamente não vão levá-lo ao destino traçado por si, mas sim o traçado pelo Todo. Sim podemos ser pequenos demais para compreender, mas a gente tem a capacidade de sentir.E o Todo, a natureza, sim pode chamar de Deus também, hora ou outra vai sussurrar nos seus ouvidos: Tudo tem uma razão para ser e acontecer . Então você sente que o medo, esse sentimento que nos faz tão pequenos, é simplesmente fruto de uma falta de sintonia entre nós mesmos e o Todo.

Nós. Tão impotentes – com tanto poder. Que ironia, esse misto de sensações. Sublime ironia.

E você, já sentiu algo parecido alguma vez na sua vida?

Postado originalmente em 02/02/12 no meu antigo blog pessoal.

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14 Comentários à Quem já se drogou sem drogas?

  1. Sabrina 08/05/2017 at 10:39 #

    Incrivel!!!

  2. solange 14/02/2012 at 22:38 #

    Cleido,acho que a sensibilidade de sentir e transmitir algo está no sangue, e vc também senpre soube transmitir isto em atos e palavras.Lindas palavras este “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”sempre procurei por em prática,e tenho certeza Gustavo tb. Valeu primo!!!

  3. Anonymous 14/02/2012 at 10:04 #

    Caramba! Tô começando a achar que voar faz bem à saúde!Não, não nos conhecemos. Cheguei ao seu blog por intermédio do blog do Zeca. Um abraço, voltarei sempre que possível!
    Cristiane

    • Gustavo Junqueira 14/02/2012 at 13:01 #

      Olá Cristiane! Sou suspeitíssimo pra falar, mas voar faz muito bem à saúde, sim! Seja bem vinda e volte sempre!

  4. Anonymous 13/02/2012 at 17:20 #

    GUSTAVO,VC DESCOBRIU NUMA RAPIDEZ IMPRESSIONANTE O CHEIRO DAS MANHÃS,A CONTEMPLAÇÃO DO ÓCIO NAS TARDES E A SERENIDADE DA NOITE.NÓS,OS MAIS VELHOS DESCOBRIMOS COM O TEMPO UMA COISA DE CADA VEZ,MAS,VOCE,JOVEM E COM UM IMENSO CAMINHO A CAMINHAR DESCOBRIU DE VEZ O QUE SE LEVA ANOS PARA SENTIR.
    FICO FELIZ QUANDO TRANSFORMA SUAS EXPERIENCIAS EM LETRAS O QUE ME REMETE AO S.A.EXUPERY QUE DIZIA…”TU TE TORNAS ETERNAMENTE RESPONSÁVEL POR AQUILO QUE CATIVAS”. UM ABRAÇÃO. JOAO CLEIDO.

    • Gustavo Junqueira 14/02/2012 at 12:59 #

      Valeu pelas palavras Cleido! Você sabia que Exupery era piloto? O Pequeno Príncipe foi o único livro que ele escreveu que não falava das suas aventuras aéreas! Um abração!

  5. solange 13/02/2012 at 15:25 #

    Pôxa, que posso dizer mais diante de tantas maravilhas, a sintonia da natureza com o exemplo do pai e a garra deste pequeno grande piloto, escritor e ser humamo.Só agradecer e pedir que Deus o conserve neste caminho. Parabéns Gust por saber transmitir este grande sentimento de viver a beleza da simplicidade.

  6. Gabriella Mangini 12/02/2012 at 07:50 #

    Gust, sabe que me sinto assim também em frente ao mar , leve quase que insignificante para o tamanho do mar . Muito bom , ver que nossos problemas não são nada a imensidão do mundo . Sinti isso em Vitoria no Espirito Santo , mt mt bom !

  7. Anonymous 10/02/2012 at 15:34 #

    “Viajante, escritor, “voador”, mergulhador, escalador. Seria um aventureiro? Quem sabe! Mas sobretudo mineiro, cidadão do mundo, sempre nas alturas ou indo ao fundo. Ser poeta e compositor faz parte de sua sina, quero supor. Basta juntar as belezas daqui e lá de cima e algumas rimas.” Um abraço do velho pai “bobão”
    Wilian Junqueira

    • Gustavo Junqueira 10/02/2012 at 16:29 #

      Esse pai aguçou tanto minha curiosidade nas páginas dos livros e também nos próprios versos publicados em jornais e revistas, que me deixou essa sina: De experimentar o mundo com meus próprios pés e escrever minha própria rima. Valeu bobão!

  8. thiagopopó 09/02/2012 at 09:23 #

    Nossa… acho que foi um dos posts mais emocionantes seus gust! Parabéns… Muito bom!!

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