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A saga de uma viagem de trem noturno na China

Se você espera que a maior aventura da minha viagem à China tenha sido caminhar toda extensão de sua famosa muralha ou escalar uma de suas mais altas montanhas, recomendo que leia o post anterior. Mas não, minha maior aventura na China, começou com uma gripe e uma simples viagem de trem.

Onde estão nossas camas? Não tem camas? Ok, assento serve. Não têm também? Oh não!

Onde estão nossas camas? Não tem camas? Ok, assento serve. Não têm também? Oh não!

Sempre que possível gosto de fazer viagens de 6 horas ou mais em ônibus ou trens noturnos. Dessa forma potencialmente economizo na hospedagem e chego “descansado” para desbravar uma nova cidade. De Guangzhou, uma cidade gigantesca no sul da China, planejamos seguir para Yangshuo. Para as dimensões da China, uma viagem bem curta: 11 horas de trem e mais 2 horas em ônibus nos levaria até lá.

Eu geralmente não tenho dificuldade em dormir em trens noturnos. Há um certo encanto no chocalhar do trem que tende a me ninar e me fazer dormir profundamente. E como nas duas noites anteriormente eu não tinha dormido bem, devido a uma gripe que estava começando a me incomodar, eu estava ansioso para ter as 11 horas de descanso naquele trem, com a possibilidade de dormir em um vagão com cama!

Sabendo que o trem partiria às 7:30 da noite, despedimos do nosso anfitrião (um Português, muito gente boa, estudando chinês na China) e partimos de sua casa no final da manhã com a idéia de explorar um pouco a cidade depois de comprarmos nossa passagem. Seguimos para a estação e após muita espera em uma das gigantescas filas da estação fomos atendidos pelo atendente que, fomos indicado, falava inglês. Com um inglês bem limitado o chinês vendeu nossas passagens que segundo ele só tinha disponível a categoria “Stendah”. Standard pensei comigo (padrão em português), tudo bem, não tem cama, mas estou tão cansado que tenho certeza, não terei problemas para dormir. Compramos nossa passagem, colocamos nossas mochilas num guarda-volume e fomos explorar a cidade. Olhamos para os lados, e só víamos chineses andando com pressa por toda a parte, nenhum balcão de informação com ajuda em inglês ou um gringo que pudesse nos ajudar. Procuramos por toda parte uma informação de onde e como ir. Queríamos muito conhecer um mercado que entre várias coisas vendiam de insetos fritos à cachorros assados. Mas nenhuma das pessoas que a gente parava falava inglês. Nem os atendentes do balcão de informação, da estação de trem ou da estação de metrô, nem os policiais ou seguranças. Ninguém. Internet? Andamos por todos os lados e não encontramos nenhum acesso wifi, nem no MC Donalds, nem nos shoppings. Em lugar algum. Desistimos e decidimos ficar por ali mesmo. Caminhamos e nada além do que encontramos em todas cidades grandes chamou muito nossa atenção. Estávamos muito cansados e prontos para entregarmos os pontos no trem.

No papel da nossa passagem as únicas coisas que eram inteligíveis eram os números. A hora de partida do trem e o número provavelmente do nosso vagão e só. Quando chegou a hora de embarcar, uma fila gigantesca se formou para embarcar no trem. Era tanta gente que parecia a multidão saindo de um estádio de um jogo clássico de futebol, com muitos chineses falando alto ou quase gritando. Tanta gente entrou no nosso vagão que tivemos que entrar em um outro e o segurança não deixava que a gente fosse para o nosso vagão falando tudo em chinês e claro a gente com cara de “ahn?” sem entender nada. O que estava acontecendo? Porque tinha tanta gente em pé? Onde estava nosso assento? O trem já estava em movimento quando ainda estávamos em pé tentando entender aquela confusão e buscando resposta para nossas perguntas. Uma chinesa que falava inglês finalmente viu nossa aflição e veio ajudar. Demos nossa passagem para ela nos dizer onde estava nosso assento e ela disse que não tínhamos assento, compramos a categoria “Stand-up”, em pé e não standard, como eu tinha entendido. A gente e aquela multidão toda iria viajar em pé? Sim, disse ela.

Com a ajuda dela acabamos conseguindo, no entanto, pagar (cerca de U$5) para podermos sentar nas cadeiras do restaurante e embora os assentos fossem bem apertados e desconfortáveis, viajamos bem melhor do que em pé no corredor ou como estávamos bem cansados, sentados no chão imundo do trem (a gente viu muitos chineses com um costume um pouco desagradável, cuspindo em vários lugares, inclusive em lugares fechados como dentro do próprio trem). Com minha gripe piorando, essas 11 horas foram muito demoradas e uma das mais difíceis nas minhas viagens até hoje. Foi bem mais difícil que as mais de 20 horas no trem da morte na Bolívia ou a vez que viajei por 25 horas com uma dor imensa de barriga em ônibus que não tinha banheiro no Peru e que só parava a pedido dos passageiros para se aliviarem ali mesmo, na estrada. Quando chegamos em Guilín parecíamos não ter energia para mais nada. Ainda que o plano era chegar em Yangshuo ainda aquele dia, decidimos ficar por ali, no primeiro hotel que vimos na nossa frente. Foi o hotel mais chique que ficamos desde que chegamos na Ásia, em Outubro. Pagamos cerca de U$30 pela noite pelo quarto e passei o dia inteiro dormindo e recuperando para os próximos dias. Não existia nada melhor no mundo do que uma cama e um travesseiro aquele dia.

Veja um pequeno vídeo de como estávamos perdidos no trem:

E você, já fez uma viagem cansativa? Já passou por algum perrengue assim?

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13 Comentários à A saga de uma viagem de trem noturno na China

  1. vanio 10/04/2016 at 19:50 #

    Eu ja fiz uma que acho q foi pior, de BH à argentina depois uruguay q era p ser de 50hs so p argentina mas foi bem mais q isso ja q busao me deixou p tras e eu tive q “domir” rodoviária se o guarda deixasse.

    • Gusti 12/06/2016 at 15:03 #

      Eita… Essas coisas acontecem… Mas depois que passa é sempre bom ter coisa pra contar não? Hehe

  2. SOLANGE 12/05/2014 at 19:42 #

    Gust, depois desta viagem, quaqluer uma que fizer, estará no céu né??? Aí eu te pergunto; e você gostou?? Precisa não passar por isto tudo!!! Vai ter realmente muitas estórias para contar aqui no Brasil. Chegue logo, e inteiro viu??? Bjosss

  3. Jonathan 23/04/2014 at 03:23 #

    The guy asked all the passengers to keep moving and don’t stop! He asked Rafeal if he didn’t have seating ticket then he had to go to the standing area. He questioned Rafeal that whether could he speak Chinese or not and then he figured out you guys couldn’t speak Chinese and ended up the conversation. I think you guys must had a hard time to communicate with the local in china!

    • Gusti 23/04/2014 at 04:31 #

      Hahaha now it makes more sense! 🙂 Yeah, it was hard sometimes… Next time I go to China I’ll hire you as my interpreter. 😛
      Thanks Jonathan for the translation!

  4. Sandra cavblacanti 22/04/2014 at 18:40 #

    Com certeza, dura de matar.Só JESUS na causa.kkkkkkkk.Mas o melhor está por vir.Beijão.

    • Gusti 23/04/2014 at 04:18 #

      Isso é apenas uma parcela ínfima da parte de viajar, faz parte! Afinal de contas, o melhor sempre está antes e depois do que não é tão bom, né! rs
      Beijos!

  5. Felipe 15/04/2014 at 09:19 #

    Achei q vc fosse encarar 11 horas em pé no trem haha… E no final das contas vc gastou o salário de um chinês da fabrica da apple pra sentar… Assim não pode =P

    • Gusti 15/04/2014 at 09:20 #

      Imagina que luxo o meu né? Isso pq não contei das 32 horas de viagem entre Vietnã e Laos e nesse eu literalmente não tinha assento em 15 horas de viagem! Um abraço!

  6. bruna 08/04/2014 at 18:43 #

    Nossa, que perrengue hein??? Nem imagino como deve ter sido difícil pra vc! Nunca passei por algo parecido, mas já enfrentei problemas por não entender as informações de bilhete de trem, sei como isso é duro…. Quando estava na Hungria entrei em um vagão errado, que descarrilhava no meio do caminho e parava em uma cidadezinha muitttooo longe do meu destino final e zero turística, e ainda por cima ninguém falava inglês! Foi um perrengue e tanto!

    Espero que já esteja melhor, beijos!

    • Gusti 15/04/2014 at 09:03 #

      Oi Bruna,

      Essa do trem se desprender e acabar chegando em uma cidade que não estava nos planos é um risco comum na Europa. Eu já quase passei por isso. Imagino o seu perrengue! Você teve que dormir nessa cidade ou deu tempo de corrigir a rota no mesmo dia? Eu estou 100% fora o cansaço das outras dezenas de horas de viagem de ônibus dos últimos dias. Obrigado, beijos!

  7. Lucas 08/04/2014 at 13:21 #

    Que loucura, hein Gusti! Isso que eu chamo de desventuras em série! A minha viagem mais longa foi de 9 horas de avião, o assento era confortável mas estava com dor de barriga muito forte, o que me impediu de dormir, e achei isso muito ruim… não consigo imaginar o que seja 11 horas em pé, ou sentado num banquinho desconfortável e com gripe forte… espero que você já esteja melhor! Mas isso me fez pensar também num assunto importante pra quem quer fazer viagens prolongadas, que é a questão da saúde, como seguros de saúde, etc… seria legal ouvir suas sugestões sobre isso!

    Melhoras, e se cuida ai! Abraços!

    • Gusti 15/04/2014 at 08:59 #

      Oi Lucas! Nesse meio tempo acabei pegando outros ônibus (um de 24 horas e outro de 32!) em estradas de terra e esburacadas principalmente nas montanhas ao norte do Laos. E adivinhe: Éramos 3 pessoas e só tínhamos dois assentos em um trecho de 15 horas! Isso porque tivemos sorte – tinha mais 25 pessoas no chão do ônibus!… Mas apesar do desconforto nada supera viajar com dor de barriga, gripe ou outras dores, como eu disse e como você já experimentou! Valeu aí pela sugestão de post! Um abraço!

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