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Da África à América: As descobertas e os olhares de 3 crianças na viagem que mudaria suas vidas

Tudo lá embaixo vai ficando cada vez menor. Ela tenta, mas aqui de cima ela não consegue achar sua vila, na África, onde o seu pai, a outra mulher do seu pai, seus tios e a avó lhe disseram adeus.

Quando seu irmão Bakary e sua irmã Binta seguraram suas mãozinhas e a puxaram para dentro daquela sala que levava ao tubo gigantesco, ela olhou uma última vez para trás e viu muita gente com as lágrimas nos olhos. Mame Sey não chorou. Ela estava confusa. De narizinho achatado, os lábios avantajados levemente contraídos e os olhinhos negros e arregalados, ela provavelmente se questionava: “O que é esse tal de adeus?” e ainda: “Quem é essa tal de “mãe” que todos não paravam de me dizer que eu encontraria?”

criança africana de 3 anos dentro do avião

Mame Sey dentro do avião que nos levou de Nova Iorque à Seattle

Quando eles entraram naquele avião, Mame Sey só não chorou de medo porque viu a animação de seu irmão e aquilo só podia ser alguma coisa boa. Era o maior brinquedo que ela tinha visto na vida e apesar de parecer divertido ela não imaginava que ficaria presa ali dentro por mais de 10 horas. Com as mãozinhas segurando os vidros da janela daquele avião, Mame Sey viu logo a terra marrom dando lugar à agua, muita água. O maior poço que ela viu em toda sua vida!

Horas depois muitas luzes surgiriam em torres gigantescas, luzes brancas e vermelhas em sua maioria e tantas outras de outras cores. Os brilhos ficavam cada vez maiores e o barulho daquela máquina cada vez mais forte. O chão foi se aproximando e minutos antes do baque algumas pessoas apertavam as mãos umas das outras, todas esperando por alguma coisa que não se sabia o quê. Parecia que toda aquela gente também estava ali para conhecer a “mãe”.

Lá no chão, eu, de dentro do aeroporto de JFK em Nova Iorque, um dos mais movimentados do mundo, mordendo o canto da unha, observava ansioso os letreiros do voo da Delta com procedência do Senegal. Em poucos momentos o avião estaria em solo e eu não só conheceria aquelas crianças pela primeira vez, mas teria a missão de levá-las no dia seguinte à sua mãe, Sarjo que os aguardava ansiosamente em Seattle, no outro lado daquele continente.

Enquanto aguardava o desembarque, observava as várias pessoas em trajes coloridos, homens com suas túnicas de uma cor só combinando com seus sapatos e mulheres que apenas com os olhos de fora refletiam confusão, medo até que encontravam alguém conhecido e o ar enchia de alegrias, lágrimas e abraços.

De repente lá estão eles. A pequena Mame Sey, de 3 anos entre seu irmão Bakary de 12 e sua irmã Binta de 7.

Ainda não me conheciam mas Bakary, o único a falar inglês, me reconheceu como a pessoa responsável por eles naquele momento. Com muita desconfiança, Binta permitiu que eu segurasse sua mão livre e na minha outra mão eu carregava aquela mala gigante e pesada.

Quando entramos no trem do aeroporto minha atenção estava no reflexo daqueles vidros gigantescos. Bakary, vestia uma roupa de tecido fino parecendo um plástico todo verde e cheio de desenhos, a mochila e os sapatos pontudos, cor de rosa. Binta e Mame Sey, as meninas, vestidas com roupas azuis de mesmo tecido, com desenhos bordados.

O que chamava mais atenção porém, eram os olhos muito abertos daquelas crianças que viam pela primeira vez tudo que pertenciam àquele mundo em que acabaram de pousar. Formas que ainda não tinham um nome. Uma confusão de máquinas, luzes, aparelhos, veículos, aviões, pessoas de diferentes tribos, geometrias e sorrisos. Sons das mais diversas cores. Sensações que confundiam, que ainda não recebiam uma opinião, um julgamento, um pre-conceito. Um mundo novo, como ele realmente apenas era.

Nosso primeiro "selfie", Mame Sey, Binta e eu

Nosso primeiro “selfie”, Mame Sey, Binta e eu

Minhas companhias mirins naquela viagem se tornaram o meus professores, verdadeiros mestres me emprestando o olhar de criança que eu tinha perdido há tanto tempo. Senti nostalgia da minha própria infância que embora não tivesse tido experiências no exterior antes dos 20 anos de idade, via tudo pela primeira vez, sem as camadas de opiniões e pensamentos que com o tempo me fizeram etiquetar tantas pessoas e experiências com a simples palavra: normal.

Caminhando de mãos dadas éramos como uma corrente alienígena para aquelas pessoas que nos olhavam do canto do olho e passavam com passos apertados. Não foi necessário ver a estátua da Liberdade, o Empire State Building, os museus, assistir O Rei Leão, para através daqueles 6 olhos eu descobrir uma nova Nova Iorque. Era como se as cortinas se abrissem para um novo planeta. Tão distante mas que esteve embaixo do meu nariz por tanto tempo.

Do aeroporto ao hotel e do hotel de volta ao aeroporto a diversão foi garantida ao pisar pela primeira vez em uma escada rolante, ou em uma esteira, ao apertar um botão e ver as portas do elevador se abrindo e nos levando para outros cenários, ou apertar outro botão e ver e saborear uma água limpa e refrescante saindo de um bebedouro, ao ver de janelas gigantescas aviões decolando, milhares de carros na rua.

As descobertas seguiram no ônibus que nos levou até o hotel por ruas asfaltados cheias de carros e lá dentro nos mais diferentes objetos estranhos como os lustres, os carpetes, as camas gigantescas e macias dentro do quarto, a água quente dentro de um “poço” no banheiro que acabou virando um verdadeiro “play-ground”. Na tela do meu computador a imagem e a voz ao vivo da mãe que não aguentava mais a espera.

No restaurante do hotel, a surpresa de sentar em cadeiras para comer em uma mesa. A bizarra utilidade dos talhares, e a estranheza de não comerem juntos de um prato só.  O prazer de conhecer pela primeira vez o sabor do morango, da uva, do hambúrguer e mesmo dos empanados de frango que foram atacados com chocalhadas de pimenta pelas crianças que achavam aquela comida sem gosto.  A surpresa do gesto de alguém que anonimamente deixou a conta do restaurante paga!

As crianças africanas na cama do hotel em Nova Iorque

Mame Sey, Bakary e Binta na “gigantesca” cama do hotel em Nova Iorque

No dia seguinte após mais de 5 horas voando juntos, fica na minha memória a emoção do reencontro com a mãe que por amor esteve longe por 3 anos de seu país Gâmbia, de seu marido (que tem duas esposas), de seus filhos. Nas lágrimas e nos abraços apertados um misto de alegria, saudade e também a frustração de ver no olhar da filha mais nova o estranhamento, como que se perguntasse: “Quem é você?” Mas ninguém precisava dizer, logo o tempo a ensinaria com aquela pessoa que tanto a abraçava o significado de amor incondicional.

Hoje fazem exatos três anos que essas crianças colocaram os pés nas Américas. Frequentemente as visito e as vejo crescer e estudar perto de Seattle. Eu tento lembrar sempre dessa experiência quando assumo que as coisas na minha volta são garantidas e começam a ficar “normais” demais. Lembro que depende sempre de nós mesmos como enxergamos e que valor damos a tudo que temos, vivemos, e sentimos no dia-a-dia, incluindo claro, as pessoas.

Esse é um pequeno fragmento de uma história que se ramifica, que se conecta por exemplo com uma senhora que nasceu no Havaí no início do século passado e tantas outras pessoas. Em Outubro essa história continua quando visitaremos pela primeira vez as origens da Sarjo e suas crianças na comunidade de onde eles vieram no interior da Gâmbia, um pequeno país na costa oeste africana! Aguardem!

Binta, Mame Sey, Sarjo e Bakary alguns dias após o reencontro

Binta, Mame Sey, Sarjo e Bakary alguns dias após o reencontro

Binta, Bakary e Mame Sey se divertindo e explorando o novo lar

Binta, Bakary e Mame Sey se divertindo e explorando o novo lar

Em inglês existe a expressão: “Take for granted” que é como se fosse assumir que você tem alguma coisa garantida e não dá o devido valor. O que na sua vida você “take for granted”?  Você faz alguma coisa para evitar que isso aconteça? Deixe seus comentários!

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4 Comentários à Da África à América: As descobertas e os olhares de 3 crianças na viagem que mudaria suas vidas

  1. Juliana 12/07/2016 at 07:18 #

    Gusti,
    Vc me emociona. A cada linha eu sentia mais emoção….como se estivesse lá com vcs. Por favor, não pare nunca!
    Siga escrevendo com a alma…. Isso meu anjo, é um dom. E dons, quando descobertos…na minha opinião, se tornam atos divinos na Terra!
    Um super beijo com muita saudade!

    • Gusti 16/07/2016 at 15:30 #

      Eita Juliana! Que super comentário, fico feliz que tenha sentido a emoção… As vezes é muito difícil colocar em palavras certas experiências e essa por exemplo senti que não consegui expressar bem o que senti, mas graças à sua imaginação você deve ter chegado bem próximo! Um beijão!

  2. Adriano Chaves 23/08/2015 at 18:39 #

    Que história incrível, ainda mais com continuação. Você é um privilegiado por participar de parte de tudo isso, o sentimento que deve passar na cabeça sua e dessas crianças é de descoberta, de mudanças, e no seu caso especificamente parece que “re-vivenciou” sua infância a partir de outros olhos, de uma outra cultura totalmente diferente da sua. Ahhh…só uma curiosidade que ficou implícita pra mim, elas vieram sozinhas no avião?

    • Gusti 23/08/2015 at 20:31 #

      Ei Adriano! Sim, me sinto privilegiado de participar dessa história, que continua e se desdobra! Na verdade eu tinha até um voo marcado para buscá-los no Senegal, mas um agente de viagem conseguiu um passageiro no mesmo voo para assinar a papelada e ser o responsável deles naquele voo! Abraço!

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